quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
Pouca solenidade e nenhum foguete
Dezembro insiste.
Não acabou, ainda.
Ao menos,
a melodia que se repetia,
descansa.
Por aqui,
pouca solenidade
e quase nenhum foguete.
Ouve-se
vozes pronunciando coisas
inaudíveis.
Bom dia este.
Amanhã a agitação retorna.
É que dezembro segue.
domingo, 22 de dezembro de 2013
Para marcar o último dia
Então ...
fazer poesia,
marcar o último dia.
É hora,
corre menina.
É dia de fim.
Vai ...
faz a tal poesia.
Diga a todos
das alegrias,
das avarias
e outras vividas
que cabem
na forma ias
Mas é que me ponho a pensar,
ensaiar versos, rimas, prosas
Dançar nas letras da poesia
É que gosto mesmo
das alforrias.
Pobre das palavras
fazer poesia por obrigação
de dia.
Sei não.
Melhor deixá-las
desditas
quase mistério,
quase magia.
Afinal, quem inventou
esta agonia
de matar em sacrifício
e dar tristeza
para este dia
que faça
para si e os seus
alguma aletria.
Deixem a prosa,
o poema, o cordel
e as cantorias.
Deixem que elas segredem
seu gosto,
digam da vida
que ganham,
aceitem dizer da vida
da gente
naquilo que são,
nas formas que têm,
no dia, na noite
ou no tempo.
fazer poesia,
marcar o último dia.
É hora,
corre menina.
É dia de fim.
Vai ...
faz a tal poesia.
Diga a todos
das alegrias,
das avarias
e outras vividas
que cabem
na forma ias
Mas é que me ponho a pensar,
ensaiar versos, rimas, prosas
Dançar nas letras da poesia
É que gosto mesmo
das alforrias.
Pobre das palavras
fazer poesia por obrigação
de dia.
Sei não.
Melhor deixá-las
desditas
quase mistério,
quase magia.
Afinal, quem inventou
esta agonia
de matar em sacrifício
e dar tristeza
para este dia
que faça
para si e os seus
alguma aletria.
Deixem a prosa,
o poema, o cordel
e as cantorias.
Deixem que elas segredem
seu gosto,
digam da vida
que ganham,
aceitem dizer da vida
da gente
naquilo que são,
nas formas que têm,
no dia, na noite
ou no tempo.
Ah, o tempo.
Tenho saudades do tempo.
Das músicas ouvidas em vinil.
Dos abraços quentes do primeiro amor.
Do pobre do Di Giorgio
que testemunhou meus fracassos musicais.
Dos amigos do fim de tarde.
Das conversas sem rumo, de risos fáceis e
gostos de estar junto, apenas para estar juntos.
Tenho saudades da chuva.
Mas hoje chove.
E isto faz o dia bom.
Tenho saudades do tempo.
Das músicas ouvidas em vinil.
Dos abraços quentes do primeiro amor.
Do pobre do Di Giorgio
que testemunhou meus fracassos musicais.
Dos amigos do fim de tarde.
Das conversas sem rumo, de risos fáceis e
gostos de estar junto, apenas para estar juntos.
Tenho saudades da chuva.
Mas hoje chove.
E isto faz o dia bom.
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
O som que amansa os sentidos
Ouço o afiador de facas chamar.
Quanto conforto este som me traz.
É como estar em casa.
Segura.
Um encontro tranquilo com o destino.
Tudo está certo.
Tudo vai dar certo.
Os cansaços
ficam por conta da boa vida
Tudo vai dar certo.
Os cansaços
ficam por conta da boa vida
E da correria alegre.
Ai meu Deus!
Quanta curiosidade trago nos olhos.
Quanta curiosidade trago nos olhos.
As facas, essas,
pouco importam.
A roda que gira, gira, gira
e o apito que amansa os sentidos
é que fazem o mundo bom.
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Palavrear, Palavrórios e Palavrarias
Ai que saudade
de escrever palavras.
Soltas, leves, líricas.
As que escapam
do uso fútil do dia a dia.
As que nascem mansas,
sonsas e belas.
As que explodem
feito luz de um novo dia.
Ai que saudades
de palavrear um pouco
Dizer da vida de todos dias
Das mandinganças, palavrórios e
palavrarias.
Por que será que as proezas diárias,
as agonias várias, as manias torpes
as náuseas humanas
têm ficado sem palavras?
Será o que meu Deus!
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Carta entre amigas - As terras rasas do São Francisco agradecem
100 palavras, seria ótimo!
Mande de aí, onde estiver.
Por aqui chegam cartas,
talvez até deixem passar palavras.
É preciso, porém
pensar bem na embalagem.
Palavras são preciosidades,
disputadas em todos os lugares.
As que mandares
já lhes dê alguma noção da terrinha:
águas quentes, águas frias
Moças de cabelos longos,
ondulados, em reboliço.
Moços altos, magros,
doces e gentis...
Há os brutos também.
Mas não mande palavras
que os entendam.
Mande palavras que queiram
vida de índio.
Palavras já gastas de civilização
também são boa companhia.
São gentis para com o que não conhecem.
Podes mandar também
palavras desentendidas,
pouco explicativas,
poucos clarividentes.
Elas são boa companhia,
leves, gentis...
Recebem toda gente.
Sou gaúcha, você sabe.
A gente gosta de ironia.
É uma arma antiga
daqueles que viveram
muito tempo a revelia.
Mande algumas se as encontrar.
Selecione, porém.
Grãos muito graves,
severam a poesia.
Agradeço as ditas escritas
que mandastes,
já me deram muito a sentir
do agora e do por vir.
As terras rasas do São Francisco,
também agradecem.
Depois da transposição,
nunca mais plantio de arroz,
nunca mais cuzcuz de arroz.
As palavras suas,
brancas e leves
lembram o gosto dessas iguarias.
Carta para Roseane Viana em resposta A Transposição do São Francisco Aconteceu!
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
A Tansposição do São Francisco aconteceu
A transposição do
São Francisco
aconteceu!
Uma só gota de poesia
passou por aqui.
Todas as palavras se foram.
Mesmo as que nascem novas
correm pra lá.
Não conseguem ficar aqui.
Será o que meu deus!
As folhas de papel
tomaram tudo para si.
Uma a uma...
todas as palavras
Vou fixar território
numa sanga.
Vá que algumas fujonas
se instalem ali,
entre lambaris.
Com sorte
pesco uma e outra
e as trago para aqui.
São Francisco
aconteceu!
Uma só gota de poesia
passou por aqui.
Todas as palavras se foram.
Mesmo as que nascem novas
correm pra lá.
Não conseguem ficar aqui.
Será o que meu deus!
As folhas de papel
tomaram tudo para si.
Uma a uma...
todas as palavras
Vou fixar território
numa sanga.
Vá que algumas fujonas
se instalem ali,
entre lambaris.
Com sorte
pesco uma e outra
e as trago para aqui.
domingo, 25 de agosto de 2013
Dona Sônia, o Livro de Protocolo e Todos os Nomes de Saramago
Num dia desses
me dirigi a Dona Sônia,
a fiel guardiã do Livro de Protocolo.
Apresentei a ela um cartão com um número:
0300130118120 de 15 de março de 2013.
Meu objetivo era saber
se a tal promoção por causa do doutorado
seria acrescida ou não no meu contracheque.
Afinal, faz tempo....
Eu explico.
Vivemos de mendicâncias.
Se você é uma profissional qualificada,
Quer dizer titulada
tem o benefício de ter acrescido em seu
salário base um percentual.
Uns dizem que é 15%.
Outros que é de 5%.
De fato mesmo,
até agora não recebi nada.
Fui eu lá saber onde estaria o tal
processo administrativo.
Dona Sônia prontamente
pega o Livro de Protocolo nas mãos.
Passa os dedos sobre o relevo das letras e números
manuscritos nas folhas de papel repetindo o final 120
para localizar mais rapidamente o que procuro.
Uma visão, o tal caderno.
É um caderno grande, tipo universitário,
de capa dura e cor preta, com folhas brancas,
linhas horizontais e verticais,
Todo escrito à mão: Número de protocolo, data de protocolo,
nome do requerente, assunto e o que mais for preciso anotar.
Quantos daqueles haverão?
Este é só deste ano e está quase totalmente preenchido.
É lindo demais.
Os registros manuscritos
desenham um mundo de códigos, signos, nuances
quase homogêneos, todos com uma e outra singularidade.
Detalhe. Tudo escrito com esferográfica azul.
As folhas sobrepostas umas as outras formam
uma espécie de ondulado,
um fio de macarrão esticado,
mas prensado entre as capas duras.
Não preciso dizer. Minha curiosidade se acendeu.
É que eu lembrei de Todos os Nomes de Saramago.
O personagem é um funcionário
público cujo ofício consiste em guardar
fichas, registros escritos com os nomes
dos viventes de uma pequena cidade.
Uma espécie de cartório que guarda
informações de identificação das pessoas
RG, CPF, Endereço, Filiação...
Essas coisas.
Um dia, o funcionário público pensa: Quem será este nome?
Que pessoa será esta? Onde mora? Como vive?
Ainda mora neste endereço? Quem é ela?
É que ele só sabe os nomes, não tem nenhum rosto em seus sentidos.
Deste dia em diante sua vida muda.
Volto a prestar atenção em Dona Sônia
e sua diligência nas folhas do livro.
Ela me diz: Já estou em Julho.
Eu mostro o cartão novamente para
ela conferir o número do processo.
Ela olha, confirma e volta a folhear o Livro.
Percebe minha inquietação.
Apressa-se em dizer que talvez
tenha sido registrado noutra data
e me encaminha para Dilza,
a responsável pelo setor que faz
o processo caminhar na instituição.
É um livro guardado a sete chaves.
Achei melhor deixar prá lá.
Minha relação poética com a vida e a
palavra escrita fica para outro momento.
me dirigi a Dona Sônia,
a fiel guardiã do Livro de Protocolo.
Apresentei a ela um cartão com um número:
0300130118120 de 15 de março de 2013.
Meu objetivo era saber
se a tal promoção por causa do doutorado
seria acrescida ou não no meu contracheque.
Afinal, faz tempo....
Eu explico.
Vivemos de mendicâncias.
Se você é uma profissional qualificada,
Quer dizer titulada
tem o benefício de ter acrescido em seu
salário base um percentual.
Uns dizem que é 15%.
Outros que é de 5%.
De fato mesmo,
até agora não recebi nada.
Fui eu lá saber onde estaria o tal
processo administrativo.
Dona Sônia prontamente
pega o Livro de Protocolo nas mãos.
Passa os dedos sobre o relevo das letras e números
manuscritos nas folhas de papel repetindo o final 120
para localizar mais rapidamente o que procuro.
Uma visão, o tal caderno.
É um caderno grande, tipo universitário,
de capa dura e cor preta, com folhas brancas,
linhas horizontais e verticais,
Todo escrito à mão: Número de protocolo, data de protocolo,
nome do requerente, assunto e o que mais for preciso anotar.
Quantos daqueles haverão?
Este é só deste ano e está quase totalmente preenchido.
Pensei.
Vou pedir para fotografar.É lindo demais.
Os registros manuscritos
desenham um mundo de códigos, signos, nuances
quase homogêneos, todos com uma e outra singularidade.
Detalhe. Tudo escrito com esferográfica azul.
As folhas sobrepostas umas as outras formam
uma espécie de ondulado,
um fio de macarrão esticado,
mas prensado entre as capas duras.
Não preciso dizer. Minha curiosidade se acendeu.
É que eu lembrei de Todos os Nomes de Saramago.
O personagem é um funcionário
público cujo ofício consiste em guardar
fichas, registros escritos com os nomes
dos viventes de uma pequena cidade.
Uma espécie de cartório que guarda
informações de identificação das pessoas
RG, CPF, Endereço, Filiação...
Essas coisas.
Um dia, o funcionário público pensa: Quem será este nome?
Que pessoa será esta? Onde mora? Como vive?
Ainda mora neste endereço? Quem é ela?
É que ele só sabe os nomes, não tem nenhum rosto em seus sentidos.
Deste dia em diante sua vida muda.
Volto a prestar atenção em Dona Sônia
e sua diligência nas folhas do livro.
Ela me diz: Já estou em Julho.
Eu mostro o cartão novamente para
ela conferir o número do processo.
Ela olha, confirma e volta a folhear o Livro.
Percebe minha inquietação.
Apressa-se em dizer que talvez
tenha sido registrado noutra data
e me encaminha para Dilza,
a responsável pelo setor que faz
o processo caminhar na instituição.
Me ocorreu dizer que existe um área
chamada sociologia da recepção e
que estuda a história do livro, a história da escrita
e blá, blá, blá, blá...
chamada sociologia da recepção e
que estuda a história do livro, a história da escrita
e blá, blá, blá, blá...
Mas ... Dona Sônia vai estranhar.
Peço para fotografar?É um livro guardado a sete chaves.
Achei melhor deixar prá lá.
Minha relação poética com a vida e a
palavra escrita fica para outro momento.
Ah, o meu processo? Não acharam.
Mandaram fazer outro
e protocolar no Livro.
Diferente do personagem de Saramago
não foi desta vez que a minha vida mudou.
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
Dias sem palavras, Dias com imagens, Dias com memórias
Reencontrei alguns amigos
de adolescência.
As fotos cumprem sua parte.
Dão ao tempo uma forma-imagem.
Corpos leves, esguios,
expressivos, em prontidão
esboçam os gestos grandes
da juventude.
Todos nós, tão lindos!
Bem antes dos vídeos
As fotos registravam tudo.
Dias felizes aqueles.
Cada dia era um novo,
um devir.
Isto não causava desconforto.
Era tão bom.
Sonhei a noite toda
com os amigos de antes.
Quem sabe vou num dos encontros
em Porto Alegre.
O sonho era sem palavras.
Só imagens.
Eu era tão tímida.
O sonho tinha olhares.
Palavras não.
Acho que foi a emoção.
Muitas imagens.
Tenho os olhos cansados
do sol dos trópicos.
Sorte foi a chuva.
Choveu muito hoje pela manhã.
Molhou bem minhas memórias.
Espero brotação nova vindo aí.
de adolescência.
As fotos cumprem sua parte.
Dão ao tempo uma forma-imagem.
Corpos leves, esguios,
expressivos, em prontidão
esboçam os gestos grandes
da juventude.
Todos nós, tão lindos!
Bem antes dos vídeos
As fotos registravam tudo.
Dias felizes aqueles.
Cada dia era um novo,
um devir.
Isto não causava desconforto.
Era tão bom.
Sonhei a noite toda
com os amigos de antes.
Quem sabe vou num dos encontros
em Porto Alegre.
O sonho era sem palavras.
Só imagens.
Eu era tão tímida.
O sonho tinha olhares.
Palavras não.
Acho que foi a emoção.
Muitas imagens.
Tenho os olhos cansados
do sol dos trópicos.
Sorte foi a chuva.
Choveu muito hoje pela manhã.
Molhou bem minhas memórias.
Espero brotação nova vindo aí.
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
O sentido da vida
Silêncio, o sentido da vida.
Hoje meu coração sentiu aquela coisa
boa, pequena, íntima, toda inteira
Hoje meu coração sentiu aquela coisa
boa, pequena, íntima, toda inteira
do encontro com o que dá sossego a alma: o sentido da vida.
Para cada um o sentido da vida esta em uma ou duas coisas. Talvez três.
Eu conheço poucas coisas que fazem meu coração ficar quieto e saber
que vive inteiro no meu peito.
Nestes momentos amo mais ainda o silêncio.
Um sorriso sem rir. Um sorriso do olhar.
Para cada um o sentido da vida esta em uma ou duas coisas. Talvez três.
Eu conheço poucas coisas que fazem meu coração ficar quieto e saber
que vive inteiro no meu peito.
Nestes momentos amo mais ainda o silêncio.
Um sorriso sem rir. Um sorriso do olhar.
Um prazer no corpo.
Fazer o que se gosta.
Tão bom.
Hoje me senti muito feliz.
Fazer o que se gosta.
Tão bom.
Hoje me senti muito feliz.
sábado, 27 de julho de 2013
Aqui não faz frio.
Aqui não faz frio.
Chove, apenas.
Sobraram três pés de árvore na minha rua.
Posso escrever vendo-os da janela.
Num dia de chuva como o de hoje
é um prazer para o olhar.
Talvez seja a memória das chuvas
infantis. Talvez sejam as águas
doces que conheci.
Lagoa dos Barros, do Peixoto,
Três Cachoeiras, Maquiné...
Aqui não faz frio.
Chove, apenas.
Chove, apenas.
Sobraram três pés de árvore na minha rua.
Posso escrever vendo-os da janela.
Num dia de chuva como o de hoje
é um prazer para o olhar.
Talvez seja a memória das chuvas
infantis. Talvez sejam as águas
doces que conheci.
Lagoa dos Barros, do Peixoto,
Três Cachoeiras, Maquiné...
Aqui não faz frio.
Chove, apenas.
sexta-feira, 19 de julho de 2013
A Calçada e o Canto do Povo de Um Lugar
Num dia desses fui ao centro da cidade.
Quer dizer à Calçada.
Um ponto de Salvador próximo ao Porto.
Região que foi próspera nos anos 1990.
Grandes edifícios de empresas públicas,
montepios, bancos, instituições ligadas a justiça,
saúde, fazenda e importante centro comercial com prédios de
escritórios e o Museu do Cacau.
Há também o Trapiche Barnabé, o Mercado do Ouro, o Plano Inclinado
e outros equipamentos de época em que a prosperidade
andava por lá.
Vou pouco ao bairro.
É bem verdade que em meus passeios
antropológicos passo por lá,
ao menos, uma vez ao mês.
Faço uso do Doron, ônibus que passa
no Rio Vermelho e vai até o Cabula.
No entremeio passa pela Calçada.
Acho curioso chamar o bairro por este nome.
Preciso pesquisar o porquê disto.
Eu costumo me referir ao bairro como
cidade baixa, já que ele fica abaixo do Pelourinho
e do Santo Antônio Além do Carmo.
Mas o que isto importa?
Não sei se o que se passa lá interessa,
mas a sensação de andar por ali é de trânsito.
Tudo está em trânsito, espera e deriva.
Tudo ao mesmo tempo.
Filas diante do Ministério do Trabalho.
Sim, eu passei lá, antes das 9h da manhã.
Filas diante de um prédio que tem uma agência bancária no térreo,
com a porta aberta para a calçada. Deve ser por isto o nome.
Os estabelecimentos são abertos para a calçada.
Moradores de rua nos vãos das portadas
dos grandes edifícios, naqueles em que não há grades.
Pessoas desfazem as camas, reúnem seus pertences:
colchão, lençóis e outros panos.
Alguns, ainda, dormem.
Na festa do Bom Fim o bairro é vivo.
Ele é o ponto em que a festa começa.
Lancherias, padarias, quiosques...
Tudo se abre para os passantes em procissão festiva.
Baianas e suas Águas de Cheiro em vasos sobre os torsos.
Políticos e suas comitivas.
Bandas, Fanfarras, Cordões, Blocos
e outras formações coletivas dançam, tocam instrumentos,
Quer dizer à Calçada.
Um ponto de Salvador próximo ao Porto.
Região que foi próspera nos anos 1990.
Grandes edifícios de empresas públicas,
montepios, bancos, instituições ligadas a justiça,
saúde, fazenda e importante centro comercial com prédios de
escritórios e o Museu do Cacau.
Há também o Trapiche Barnabé, o Mercado do Ouro, o Plano Inclinado
e outros equipamentos de época em que a prosperidade
andava por lá.
Vou pouco ao bairro.
É bem verdade que em meus passeios
antropológicos passo por lá,
ao menos, uma vez ao mês.
Faço uso do Doron, ônibus que passa
no Rio Vermelho e vai até o Cabula.
No entremeio passa pela Calçada.
Acho curioso chamar o bairro por este nome.
Preciso pesquisar o porquê disto.
Eu costumo me referir ao bairro como
cidade baixa, já que ele fica abaixo do Pelourinho
e do Santo Antônio Além do Carmo.
Mas o que isto importa?
Não sei se o que se passa lá interessa,
mas a sensação de andar por ali é de trânsito.
Tudo está em trânsito, espera e deriva.
Tudo ao mesmo tempo.
Filas diante do Ministério do Trabalho.
Sim, eu passei lá, antes das 9h da manhã.
Filas diante de um prédio que tem uma agência bancária no térreo,
com a porta aberta para a calçada. Deve ser por isto o nome.
Os estabelecimentos são abertos para a calçada.
Moradores de rua nos vãos das portadas
dos grandes edifícios, naqueles em que não há grades.
Pessoas desfazem as camas, reúnem seus pertences:
colchão, lençóis e outros panos.
Alguns, ainda, dormem.
Na festa do Bom Fim o bairro é vivo.
Ele é o ponto em que a festa começa.
Lancherias, padarias, quiosques...
Tudo se abre para os passantes em procissão festiva.
Baianas e suas Águas de Cheiro em vasos sobre os torsos.
Políticos e suas comitivas.
Bandas, Fanfarras, Cordões, Blocos
e outras formações coletivas dançam, tocam instrumentos,
desfilam cores em roupas bordadas
com enfeites, brilhos e sons.
Mas neste dia a deriva dava o tom.
Não que viver um pouco sem destino
não seja bom. É muito bom viver um pouco
sem rumo, um pouco vagante.
Feito estar entre ondas do mar. O balanço acomoda
com enfeites, brilhos e sons.
Mas neste dia a deriva dava o tom.
Não que viver um pouco sem destino
não seja bom. É muito bom viver um pouco
sem rumo, um pouco vagante.
Feito estar entre ondas do mar. O balanço acomoda
melhor o que nos pesa.
Mas deriva muita faz delirar.
Faz desesperar.
A turba do Bom Fim sabe o fim a encontrar.
O passante num dia comum sente vontade de chorar.
Onde está alegria do bairro?
Onde estão as pessoas?
Onde estão os corpos vivos, febris, gentis, risonhos?
Para onde foram todos e tudo?
É isto que faz derivar um passante naquele lugar.
Fica-se a buscar, a buscar, a buscar...
os de ontem, os de antes e os de hoje.
É que os que ali estão não se veem, não se tocam.
Ninguém canta, dança ou grita.
Todos seguem em busca de algo: um documento carimbado, o protocolo junto a
repartição, a audiência na justiça, um certificado de tempo de serviço,
uma merenda para matar a fome, uma esmola para começar o dia,
uma vaga para estacionar o carro.
Xi, lá vem o flanelinha.
Não sei como isto se estabelece.
O que? A vida fixar-se numa e só experiência.
Sei apenas que da Calçada tiraram o Canto de um Povo de Um lugar.
Mas deriva muita faz delirar.
Faz desesperar.
A turba do Bom Fim sabe o fim a encontrar.
O passante num dia comum sente vontade de chorar.
Onde está alegria do bairro?
Onde estão as pessoas?
Onde estão os corpos vivos, febris, gentis, risonhos?
Para onde foram todos e tudo?
É isto que faz derivar um passante naquele lugar.
Fica-se a buscar, a buscar, a buscar...
os de ontem, os de antes e os de hoje.
É que os que ali estão não se veem, não se tocam.
Ninguém canta, dança ou grita.
Todos seguem em busca de algo: um documento carimbado, o protocolo junto a
repartição, a audiência na justiça, um certificado de tempo de serviço,
uma merenda para matar a fome, uma esmola para começar o dia,
uma vaga para estacionar o carro.
Xi, lá vem o flanelinha.
Não sei como isto se estabelece.
O que? A vida fixar-se numa e só experiência.
Sei apenas que da Calçada tiraram o Canto de um Povo de Um lugar.
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Cabiria de Fellini, Clarice Lispector e Eu
Ontem assisti Noites de Cabiria de Fellini.
Eu pensava que já o tinha visto,
mas me confundi
com Julieta dos Espíritos.
Cabiria vive encontros em trânsito.
Tem sempre de caminhar. Ir ou voltar.
É que seu ofício lhe faz ir além de seu lugar.
Um pouco como Clarice de "É para lá que eu vou".
Só depois de muito ir é que ela não voltou.
Bem, isto o filme não confirma.
Mas, Clarice, também não.
Cabiria vive encontros com o desamparo.
Vive na superfície de entre mundos.
Mundos na borda do seu.
Um pouco como Dona Frozina de Clarice,
cujas maninganças lhe deram vida longa,
a pesar da viuvez juvenil, de dormir
antes de terminar as rezas e viver de pensão.
Cabiria arriscou-se e foi numa procissão.
Degredados em desespero.
Após a benção, diversão.
Pique-nique, dança com violão.
Mas Cabiria sofre!Quer ser como a Madona,
esposa, mãe e mulher de família.
Grita como se tivesse lido Clarice:
"À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante,
eu a que necessita, a que pede, a que chora,
a que se lamenta. Mas a que canta".
Cabiria gosta mesmo é de dançar.
Dança mambo. Dança na rua, dança
no bar, dança depois de uma mesma desilusão.
É uma visão ingênua e ao mesmo tempo lírica do desamparo feminino.
Não tem crueldade no filme. Tem apenas deriva, errância.
Cabiria não tem vestido.
Perde-o já no primeiro capítulo.
Um afogamento acaba com seu único e belo vestido.
Mas ela se salva.
Acho que Clarice viu o filme de Fellini.
Ela diz: - "Vou contar um segredo: meu vestido é lindo e não quero morrer ...
...O morto no mar da Urca...o bobo, morreu..."
Cabiria salva-se e com ela uma parte de seu vestido.
Mas está bem assim. Pode seguir, mesmo assim.
Não sabia que Clarice ficava "Atônita"
com um vestido lindo. Eu também.
Faço vestidos e realmente é muito bom ter um vestido lindo.
Ainda, não tenho nenhum amarelo e azul.
Mas vou providenciar.
Cabíria comprou roupa nova.
Mas não um vestido.
Seguiu com duas peças, saia e blusa.
Talvez seja uma sabedoria usar saia e blusa.
Eu ainda não sei fazer blusas.
Em pensamento é como se soubesse, mas não sei.
Ou talvez eu ainda queira ficar atônita.
É bom ficar atônita com um vestido lindo!
----
Noites de Cabiria - Frederico Fellini (1957)
Maninganças de Dona Frozina, É Para Lá Que Eu Vou e O Morto no Mar da Urca de Clarice Lispectos estão publicados em Onde Estivestes de Noite, editora Rocco, 1999.
Eu pensava que já o tinha visto,
mas me confundi
com Julieta dos Espíritos.
Cabiria vive encontros em trânsito.
Tem sempre de caminhar. Ir ou voltar.
É que seu ofício lhe faz ir além de seu lugar.
Um pouco como Clarice de "É para lá que eu vou".
Só depois de muito ir é que ela não voltou.
Bem, isto o filme não confirma.
Mas, Clarice, também não.
Cabiria vive encontros com o desamparo.
Vive na superfície de entre mundos.
Mundos na borda do seu.
Um pouco como Dona Frozina de Clarice,
cujas maninganças lhe deram vida longa,
a pesar da viuvez juvenil, de dormir
antes de terminar as rezas e viver de pensão.
Cabiria arriscou-se e foi numa procissão.
Degredados em desespero.
Após a benção, diversão.
Pique-nique, dança com violão.
Mas Cabiria sofre!Quer ser como a Madona,
esposa, mãe e mulher de família.
Grita como se tivesse lido Clarice:
"À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante,
eu a que necessita, a que pede, a que chora,
a que se lamenta. Mas a que canta".
Dança mambo. Dança na rua, dança
no bar, dança depois de uma mesma desilusão.
É uma visão ingênua e ao mesmo tempo lírica do desamparo feminino.
Não tem crueldade no filme. Tem apenas deriva, errância.
Cabiria não tem vestido.
Perde-o já no primeiro capítulo.
Um afogamento acaba com seu único e belo vestido.
Mas ela se salva.
Acho que Clarice viu o filme de Fellini.
Ela diz: - "Vou contar um segredo: meu vestido é lindo e não quero morrer ...
...O morto no mar da Urca...o bobo, morreu..."
Cabiria salva-se e com ela uma parte de seu vestido.
Mas está bem assim. Pode seguir, mesmo assim.
Não sabia que Clarice ficava "Atônita"
com um vestido lindo. Eu também.
Faço vestidos e realmente é muito bom ter um vestido lindo.
Ainda, não tenho nenhum amarelo e azul.
Mas vou providenciar.
Cabíria comprou roupa nova.
Mas não um vestido.
Seguiu com duas peças, saia e blusa.
Talvez seja uma sabedoria usar saia e blusa.
Eu ainda não sei fazer blusas.
Em pensamento é como se soubesse, mas não sei.
Ou talvez eu ainda queira ficar atônita.
É bom ficar atônita com um vestido lindo!
----
Noites de Cabiria - Frederico Fellini (1957)
Maninganças de Dona Frozina, É Para Lá Que Eu Vou e O Morto no Mar da Urca de Clarice Lispectos estão publicados em Onde Estivestes de Noite, editora Rocco, 1999.
domingo, 30 de junho de 2013
Django à brasileira e sua Brunilde: a Democracia de Direitos
Frases de amor
em guardanapos de papel.
Uma experimentação gostosa,
casual e excitante.
Abre a fantasia dos encontros.
Fui à Sampa nestes dias
Adoro aquela estética urbana
Ruas, ruas, ruas.
Calçadas razoavelmente amplas
para os caminhantes.
Moradas, árvores,
travessias apressadas nas faixas de segurança.
Andar perdido de uns e outros.
Há também os sem rumo nestas
metrópolis de pedra.
Adoro pedras
São criaturas expressivas.
Tem pedras lindas na costa de Santa Catarina
Guarda do Embaú à Pinheira,
Costeira de Zimbros e outras Ilhas de Bombinhas.
O taxista que me levou ao aeroporto disse:
- "Moça eu fui na manifestação (em Salvador). Mas o que os policiais fizeram
é injusto. Botamos as crianças na frente, depois as mulheres,
os homens e os jovens. Era para eles verem que era sem provocação,
queríamos nos manifestar. Mas eles jogaram bombas de gás
na direção das crianças e mulheres. Jogamos pedras neles.
Eu joguei muito paralelepípedo neles...".
Parece que estamos vivendo um Django à brasileira.
Quentin Tarantino deveria tirar umas férias por aqui.
Brunilde, a bela Democracia de Direitos, acendeu
o coração de muitos brasileiros.
Se os corações seguirem Tarantino
a aventura será sem piedade, com humor fino e desagradará muitos.
Vigiar será preciso. Há muitos cumprindo com vigor
o papel de Samuel L. Jackson em Django.
Bom, um chopp e conversas com os amigos
é uma boa pedida para estes dias.
Turbilhão gostoso este que interroga o estabelecido,
descontinua a política das explicações declaratórias
adotada pelos governantes atuais.
Tédio é o que nos propõem.
Bilhetes de amor, também, têm seu valor.
Os revolucionários que o digam: Mário e Cosette,
Giuseppe e Anita Garibaldi, Apolônio e René de Carvalho, Betinho (Herbert de Souza) e Maria.
em guardanapos de papel.
Uma experimentação gostosa,
casual e excitante.
Abre a fantasia dos encontros.
Fui à Sampa nestes dias
Adoro aquela estética urbana
Ruas, ruas, ruas.
Calçadas razoavelmente amplas
para os caminhantes.
Moradas, árvores,
travessias apressadas nas faixas de segurança.
Andar perdido de uns e outros.
Há também os sem rumo nestas
metrópolis de pedra.
Adoro pedras
São criaturas expressivas.
Tem pedras lindas na costa de Santa Catarina
Guarda do Embaú à Pinheira,
Costeira de Zimbros e outras Ilhas de Bombinhas.
O taxista que me levou ao aeroporto disse:
- "Moça eu fui na manifestação (em Salvador). Mas o que os policiais fizeram
é injusto. Botamos as crianças na frente, depois as mulheres,
os homens e os jovens. Era para eles verem que era sem provocação,
queríamos nos manifestar. Mas eles jogaram bombas de gás
na direção das crianças e mulheres. Jogamos pedras neles.
Eu joguei muito paralelepípedo neles...".
Parece que estamos vivendo um Django à brasileira.
Quentin Tarantino deveria tirar umas férias por aqui.
Brunilde, a bela Democracia de Direitos, acendeu
o coração de muitos brasileiros.
Se os corações seguirem Tarantino
a aventura será sem piedade, com humor fino e desagradará muitos.
Vigiar será preciso. Há muitos cumprindo com vigor
o papel de Samuel L. Jackson em Django.
Bom, um chopp e conversas com os amigos
é uma boa pedida para estes dias.
Turbilhão gostoso este que interroga o estabelecido,
descontinua a política das explicações declaratórias
adotada pelos governantes atuais.
Tédio é o que nos propõem.
Bilhetes de amor, também, têm seu valor.
Os revolucionários que o digam: Mário e Cosette,
Giuseppe e Anita Garibaldi, Apolônio e René de Carvalho, Betinho (Herbert de Souza) e Maria.
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Os dias e a aridez
Os últimos dias foram áridos.
Talvez seja a vida do mundo
ao redor agonizando.
Talvez a atmosfera de crise
que se desenha em nosso país.
Ou as profecias de
um mundo pior realizando-se.
Certo é que os dias andam áridos.
Talvez seja a seca do sertão rumando ao litoral.
A rudeza das palavras endurecendo os dias.
A morte dos corpos, dia a dia.
A ânsia por um lugar no mundo.
Ou o medo de tudo.
Certo é que os dias e a aridez estão de prosa.
Um gole pro santo outro pro canto.
Uma história daqui outra de acolá.
Olhos atentos, gestos marcados.
Pulso preso à palavra, beiço na borda do copo.
Sei não no que isto vai dar.
Talvez seja um parleur pra negociar.
Um acerto de contas.
Um reencontro.
Um crime por encomenda.
Certo é que os dias e a aridez
estão a conversar.
sábado, 1 de junho de 2013
O afiador de facas, Mário Quintana e um vestido de Chitão chique
Ontem passou por aqui o afiador de facas.
Empurrava
à moda de um carrinho de mão,
a roda de afiar
Será que ele perdeu uma das rodas no tempo de sua existência?
Desde quando existem afiadores de facas?
Não sei.
Estranhei a imagem.
Um afiador de facas que caminha!
Para mim afiadores de facas
pedalam, apitam e afiam as facas.
Tudo e uma mesma coisa.
Voltei ao meu vestido novo.
Passar cuidadosamente a dobra lateral do tecido.
Passar o ziguezague num lado, no outro...
Vincar bem a dobra do tecido para fixar o zipper.
Alfinetar o artefacto. Alinhavá-lo cuidadosamente.
Costurar, só depois de trocar o pé caldador.
Uma amiga me disse que escrevo crônicas ótimas.
Adorei. Sempre quis ser como Clarice de Aprendendo a Viver.
Fazer do viver diário uma arte.
Mas quanto desassossego é preciso para escrever bem?
Não sei.
Pensei em fazer uma crônica destes dias.
Depois esqueci o que iria escrever.
Voltei à máquina de costura.
Quero terminar um vestido.
Estou testando um evasê em chitão, bem florido e colorido.
A tesoura não cortou direito.
Lembrei do afiador de facas.
Quando será que ele vai passar aqui de novo?
Preciso terminar de ler o
Relato de Arthur Gordon Pym de Allan Poe.
Sempre achei que Moby Dick fosse a obra de aventuras no mar.
Descobri que Melville se inspirou em Gordon Pym de Allan Poe.
Pode? Agente nunca sabe nada.
Melhor se conformar.
Adoro Allan Poe.
Conheço mais seus contos fantásticos.
Por sinal, saiu uma edição linda de seus contos pela Tordesilhas:
Contos de Imaginação e Mistério.
Fiquei com uma vontade de comprar...
Mas tenho várias edições diferentes dos contos dele.
Sempre leio de novo.
Tradução diferente pode surpreender.
Também vi Leminsky na Cultura.
A capa está a cara dele.
Melhor, o bigode dele.
Despojado e provocador, como seus poemas.
Tem alguns poetas que a marca é
nos surpreender.
Quando você pensa que os decodificou
eles mudam o rumo, a prosa, a métrica,
o ritmo...mudam.
Um encontro novo a cada obra.
Leminsky é assim.
Ao menos o que eu li dele.
Depois de Gordon Pym já aviso
que não sei de nada.
Se bem que misturo Leminsky com Walt Whitman.
Assim como Fernando Pessoa e Paulo Autran.
É que conheci Whitman através de Leminsky e
ouvi muita poesia de Pessoa na voz de Autran.
Só conheci, por ele mesmo, Mário Quintana.
Mesmo assim, eu achava estranho um senhor bem velho escrever
um livro chamado Sapato Florido.
Como podia ser? Me soava muito estranho à época.
Não que os poetas e suas artes tenham idade.
Mas minha juventude não encontrava entre imagem e som um
ponto de ancoragem.
Quando chegar em casa vou escrever.
Que nada!
Experimentei o vestido. Ficou bom.
Falta colocar uma renda na barra do forro.
Vai ficar chique.
Um vestido de chitão chique.
Vou trabalhar com ele amanhã.
É que estou pensando que hoje é domingo.
Mas hoje é sábado.
Tão bom.
Chitão pega bem o corte.
Imagem e molde se ajustam,
juntam-se como um só.
Acho que, enfim, não estranhei
ideia e imagem.
O vestido parece que segue as linhas do meu corpo.
Meu corpo parece que modela o vestido.
Empurrava
à moda de um carrinho de mão,
a roda de afiar
Será que ele perdeu uma das rodas no tempo de sua existência?
Desde quando existem afiadores de facas?
Não sei.
Estranhei a imagem.
Um afiador de facas que caminha!
Para mim afiadores de facas
pedalam, apitam e afiam as facas.
Tudo e uma mesma coisa.
Voltei ao meu vestido novo.
Passar cuidadosamente a dobra lateral do tecido.
Passar o ziguezague num lado, no outro...
Vincar bem a dobra do tecido para fixar o zipper.
Alfinetar o artefacto. Alinhavá-lo cuidadosamente.
Costurar, só depois de trocar o pé caldador.
Uma amiga me disse que escrevo crônicas ótimas.
Adorei. Sempre quis ser como Clarice de Aprendendo a Viver.
Fazer do viver diário uma arte.
Mas quanto desassossego é preciso para escrever bem?
Não sei.
Pensei em fazer uma crônica destes dias.
Depois esqueci o que iria escrever.
Voltei à máquina de costura.
Quero terminar um vestido.
Estou testando um evasê em chitão, bem florido e colorido.
A tesoura não cortou direito.
Lembrei do afiador de facas.
Quando será que ele vai passar aqui de novo?
Preciso terminar de ler o
Relato de Arthur Gordon Pym de Allan Poe.
Sempre achei que Moby Dick fosse a obra de aventuras no mar.
Descobri que Melville se inspirou em Gordon Pym de Allan Poe.
Pode? Agente nunca sabe nada.
Melhor se conformar.
Adoro Allan Poe.
Conheço mais seus contos fantásticos.
Por sinal, saiu uma edição linda de seus contos pela Tordesilhas:
Contos de Imaginação e Mistério.
Fiquei com uma vontade de comprar...
Mas tenho várias edições diferentes dos contos dele.
Sempre leio de novo.
Tradução diferente pode surpreender.
Também vi Leminsky na Cultura.
A capa está a cara dele.
Melhor, o bigode dele.
Despojado e provocador, como seus poemas.
Tem alguns poetas que a marca é
nos surpreender.
Quando você pensa que os decodificou
eles mudam o rumo, a prosa, a métrica,
o ritmo...mudam.
Um encontro novo a cada obra.
Leminsky é assim.
Ao menos o que eu li dele.
Depois de Gordon Pym já aviso
que não sei de nada.
Se bem que misturo Leminsky com Walt Whitman.
Assim como Fernando Pessoa e Paulo Autran.
É que conheci Whitman através de Leminsky e
ouvi muita poesia de Pessoa na voz de Autran.
Só conheci, por ele mesmo, Mário Quintana.
Mesmo assim, eu achava estranho um senhor bem velho escrever
um livro chamado Sapato Florido.
Como podia ser? Me soava muito estranho à época.
Não que os poetas e suas artes tenham idade.
Mas minha juventude não encontrava entre imagem e som um
ponto de ancoragem.
Quando chegar em casa vou escrever.
Que nada!
Experimentei o vestido. Ficou bom.
Falta colocar uma renda na barra do forro.
Vai ficar chique.
Um vestido de chitão chique.
Vou trabalhar com ele amanhã.
É que estou pensando que hoje é domingo.
Mas hoje é sábado.
Tão bom.
Chitão pega bem o corte.
Imagem e molde se ajustam,
juntam-se como um só.
Acho que, enfim, não estranhei
ideia e imagem.
O vestido parece que segue as linhas do meu corpo.
Meu corpo parece que modela o vestido.
domingo, 12 de maio de 2013
"O medo estava ali, nem no fundo, nem no raso, nadava tranquilamente"
Num dia desses uma amiga levou um tremendo susto.
Depois ela escreveu contanto a história.
Quando falou do medo que sentiu fiquei pensando
Isto é uma forma de viver.
Vejam, ela teve medo, muito medo.
Mas sua escrita não fala com horror do medo,
com ânsia de desfazer-se do medo.
Ela fala da presença do medo.
Uma presença como outras.
A presença da expectativa de uma festa
de casamento que se aproxima,
A presença de uma amigo que a visita,
O sabor de uma comida.
Ela fala do medo sem medo do medo.
Seu medo é da doença e sua força.
O medo, na sua escrita, é uma presença.
Ela diz: "O medo estava ali, nem no fundo, nem no raso, nadava tranquilamente".
Gostei muito desse jeito de falar do medo.
Sempre fico pensando que o medo
deve ter muito medo da gente.
Ele dá um pequeno sinal de vida e é histeria geral.
Choros, gritos, gestos grandes, vozerios soltos.
Ele deve ter gostado muito.
Ela o deixou nadando tranquilamente.
Gente, o medo deve ter esquecido de si.
Penso até que a partir de hoje ele nem vai
mais se assustar com os sustos que provoca.
Vai sair pra nadar enquanto o povo corre por aí.
Só não achei bom para mim..
Eu na piscina a dar braçadas e de repente...
o medo a nadar tranquilamente.
Faço eu o que com o meu medo de nadar?
Depois ela escreveu contanto a história.
Quando falou do medo que sentiu fiquei pensando
Isto é uma forma de viver.
Vejam, ela teve medo, muito medo.
Mas sua escrita não fala com horror do medo,
com ânsia de desfazer-se do medo.
Ela fala da presença do medo.
Uma presença como outras.
A presença da expectativa de uma festa
de casamento que se aproxima,
A presença de uma amigo que a visita,
O sabor de uma comida.
Ela fala do medo sem medo do medo.
Seu medo é da doença e sua força.
O medo, na sua escrita, é uma presença.
Ela diz: "O medo estava ali, nem no fundo, nem no raso, nadava tranquilamente".
Gostei muito desse jeito de falar do medo.
Sempre fico pensando que o medo
deve ter muito medo da gente.
Ele dá um pequeno sinal de vida e é histeria geral.
Choros, gritos, gestos grandes, vozerios soltos.
Ele deve ter gostado muito.
Ela o deixou nadando tranquilamente.
Gente, o medo deve ter esquecido de si.
Penso até que a partir de hoje ele nem vai
mais se assustar com os sustos que provoca.
Vai sair pra nadar enquanto o povo corre por aí.
Só não achei bom para mim..
Eu na piscina a dar braçadas e de repente...
o medo a nadar tranquilamente.
Faço eu o que com o meu medo de nadar?
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Camile Claudel ou Pensar por Imagens
Então.
Tenho pensado muito nestes dias.
Mas é um pensamento silêncio.
É um pensar por imagens.
Fui ver o filme sobre Camile Claudel.
É sóbrio.
Tem o fundo amarelo, como a luz de vela
e o preto da solidão sem luxos.
É casto.
Acho que é isto. Tiraram toda
a libido de viver de Camile.
Eu tinha uma gata linda.
O nome dela era Camile Claudel.
A veterinária riu quando escreveu seu nome na caderneta de vacinação.
Raça: Pelo curto brasileiro. Vulgo, pé duro.
Eu a peguei da rua. Estava com fome.
Dei comida e ela ficou.
Tão linda.
Deu muitas crias. Era namoradeira como o quê.
Depois ela morreu. Foi triste.
A Camile do filme impressiona.
A expressão do rosto é de mulher.
Faces bem marcadas. Bonitas, mas marcadas.
Não havia loucura em suas faces.
Havia solidão. Muita solidão.
Nenhum excesso em seu rosto.
Apenas solidão.
O filme é corajoso.
Deixa o expectador ver o que Camile vê.
Mesmo que Camile queira ver outra coisa,
há que ver o que pode ver.
Galhos secos de uma árvore,
uma horta e freiras de capote preto.
O som do filme perturba.
Escuta-se sua força nas coisas que toca.
Acho que a libido do filme está no vento.
E nas pedras. Há muitas pedras.
Pedras brancas opõe-se aos
passos dos personagens.
Acho que ainda estou pensando.
Talvez eu reescreva este texto.
Talvez fique como Camile.
Aceitando que este é o limite.
Tenho pensado muito nestes dias.
Mas é um pensamento silêncio.
É um pensar por imagens.
Fui ver o filme sobre Camile Claudel.
É sóbrio.
Tem o fundo amarelo, como a luz de vela
e o preto da solidão sem luxos.
É casto.
Acho que é isto. Tiraram toda
a libido de viver de Camile.
Eu tinha uma gata linda.
O nome dela era Camile Claudel.
A veterinária riu quando escreveu seu nome na caderneta de vacinação.
Raça: Pelo curto brasileiro. Vulgo, pé duro.
Eu a peguei da rua. Estava com fome.
Dei comida e ela ficou.
Tão linda.
Deu muitas crias. Era namoradeira como o quê.
Depois ela morreu. Foi triste.
A Camile do filme impressiona.
A expressão do rosto é de mulher.
Faces bem marcadas. Bonitas, mas marcadas.
Não havia loucura em suas faces.
Havia solidão. Muita solidão.
Nenhum excesso em seu rosto.
Apenas solidão.
O filme é corajoso.
Deixa o expectador ver o que Camile vê.
Mesmo que Camile queira ver outra coisa,
há que ver o que pode ver.
Galhos secos de uma árvore,
uma horta e freiras de capote preto.
O som do filme perturba.
Escuta-se sua força nas coisas que toca.
Acho que a libido do filme está no vento.
E nas pedras. Há muitas pedras.
Pedras brancas opõe-se aos
passos dos personagens.
Acho que ainda estou pensando.
Talvez eu reescreva este texto.
Talvez fique como Camile.
Aceitando que este é o limite.
sexta-feira, 19 de abril de 2013
Coisas de mulher, só para a vovó.
O silêncio também é uma conversa.
Fabular, falar consigo e com os que nos habitam pela memória
é também uma experiência de valor e não nega a outrem.
Os silêncios fazem expandir a existência.
Eu estou por aqui.
Muitas coisas boas no trabalho.
Amigos novos, amigos antigos, projetos com boas parcerias. Enfim, dias povoados.
Entre isto, corte e costura.
Uma amiga diz que sou "modista". Rimos muito juntas.
Uma saia nova por semana.
Meu primeiro vestido está quase pronto.
Todo alinhavado e feito num tecido que na linguagem local chama-se "caça bordado",
em linguagem gaúcha made in french fala-se broderie.
Estou adorando.
Sempre quis fazer minhas roupas, mas ser independente envolvia outras aprendizagens.
Coisas de mulher, só para a vovó.
No mais, pequenas alegrias: Choveu, enfim, hoje e quarta-feira passada. Choveu muito!!
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Quantas histórias!
Num dia desses depois de ler o escrito de uma amiga
dei nome para uma forma de viver que me define: Adoro ouvir histórias.
Realmente, adoro ouvir histórias.
Cresci ouvindo histórias.
Algumas contadas por meu pai sobre o lugar em que ele nasceu.
A lua cheia numa madrugada na qual se iniciava uma colheita de aipim,
As jornadas de homens sobre burros levando mantimentos às cidades próximas,
Trilhas na borda das serras do mar,
Lagoas. Lindas lagoas no topo das serras e em seus entremeios
Patos, marrecos e outros a entrar e sair de águas.
Uma parte dessas histórias eram contadas ao vivo,
em passeios por esses lugares.
A grande serra vista de longe se apresentava ao olhar num azul escuro.
Uma imagem que ainda procuro noutras montanhas.
Aprendi a ser contemplativa nesses caminhos.
Lírios de São José cheirosíssimos em estradas de terra.
Cabeças e mãos para fora do carro
Gritos, alaridos e gracejos entre crianças
Muita confusão.
Rios de pedra com água rasa.
Lindos, com águas limpas faziam as brincadeiras e correrias da meninada.
No inverno eram águas grossas, velozes e volumosas.
Traziam a inundação depois da chuva.
Uma ponte pênsil testemunhava as histórias e bravatas
dos narradores.
Bem, isto tudo porque um amigo me deu um livro de poesia.
Estou lendo ainda,
Mas sua escrita tem um jeito de contar histórias
sem imagem que faz imagem.
Algo como fazer ver a vida na vida acadêmica.
É que ele os escreveu conectado ao cotidiano universitário:
pesquisa, ensino, formação pós-graduada.
É preciso contar histórias.
Transcrevo fragmentos do título Impulsos estudados:
"De quem batalha com seu discurso
como quem rala com seu corpo".
(...)
"Feia e nova nasce a ideia.
Bela porém velha passa a imagem".
(...)
"Se puder escreva, não vale a pena ficar encucado.
Toda palavra foi inventada dentro de alguma luta".
Francisco Zorzo, 2003
dei nome para uma forma de viver que me define: Adoro ouvir histórias.
Realmente, adoro ouvir histórias.
Cresci ouvindo histórias.
Algumas contadas por meu pai sobre o lugar em que ele nasceu.
A lua cheia numa madrugada na qual se iniciava uma colheita de aipim,
As jornadas de homens sobre burros levando mantimentos às cidades próximas,
Trilhas na borda das serras do mar,
Lagoas. Lindas lagoas no topo das serras e em seus entremeios
Patos, marrecos e outros a entrar e sair de águas.
Uma parte dessas histórias eram contadas ao vivo,
em passeios por esses lugares.
A grande serra vista de longe se apresentava ao olhar num azul escuro.
Uma imagem que ainda procuro noutras montanhas.
Aprendi a ser contemplativa nesses caminhos.
Lírios de São José cheirosíssimos em estradas de terra.
Cabeças e mãos para fora do carro
Gritos, alaridos e gracejos entre crianças
Muita confusão.
Rios de pedra com água rasa.
Lindos, com águas limpas faziam as brincadeiras e correrias da meninada.
No inverno eram águas grossas, velozes e volumosas.
Traziam a inundação depois da chuva.
Uma ponte pênsil testemunhava as histórias e bravatas
dos narradores.
Bem, isto tudo porque um amigo me deu um livro de poesia.
Estou lendo ainda,
Mas sua escrita tem um jeito de contar histórias
sem imagem que faz imagem.
Algo como fazer ver a vida na vida acadêmica.
É que ele os escreveu conectado ao cotidiano universitário:
pesquisa, ensino, formação pós-graduada.
É preciso contar histórias.
Transcrevo fragmentos do título Impulsos estudados:
"De quem batalha com seu discurso
como quem rala com seu corpo".
(...)
"Feia e nova nasce a ideia.
Bela porém velha passa a imagem".
(...)
"Se puder escreva, não vale a pena ficar encucado.
Toda palavra foi inventada dentro de alguma luta".
Francisco Zorzo, 2003
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
Adoro ouvir histórias
Gosto de abrir o e-mail, ler as mensagens, respondê-las...
Feito isto fico meio sem saber o que fazer.
Feito isto fico meio sem saber o que fazer.
Em seguida me dou conta de que este meu vagar pelas
mensagens,
o deslizar para páginas habituais e o retorno para a caixa
de e-mails é um certo vagar pela estante de livros.
Revisitar o prazer dessa
experiência nas bibliotecas de bairro, na escola, na universidade.
O silêncio necessário, os cochichos, os apelos, os encontros
entre as estantes, os livros que sequer conhecíamos e parecem contar uma
história que precisamos saber agora. A magia das histórias nos livros.
Hoje li uma história ótima que me rendeu dar nome para este
vagar entre mensagens.
A história se passa num trem, na Alemanha e cuja principal
personagem é inspirada em
Baudelaire: uma senhorinha. A contadora de causos, uma flâneur do vinte e um.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Ontem organizei a estante de livros de literatura
Ontem organizei a estante de livros de literatura.
Sempre que faço isto é como se as histórias ali contadas
ganhassem vida de novo em mim.
As impressões da primeira leitura
apresentam-se e conversam entre si.
Sou um semi vivente neste burburinho de vozes e narrativas.
Minha atenção está em arranjar beleza,
forjar uma arquitetura para a disposição dos volumes.
Vejam que não é arquivologia o ato.
É necessidade de beleza.
Os personagens falam a olhos vistos
se tiverem espaço, se forem vistos.
Assim, me perco
nesta quase aventura
de fazer o olhador ser capturado pela tagarelice das palavras escritas.
Há brochuras várias, cores muitas, tamanhos diversos,
grafismos, traços, impressões, imagens ...
É impressionante isto. Os livros gostam de serem olhados!
Isto não é uma teoria é uma experiência.
Clarice Lispector na Hora da Estrela diz: Sentir é um fato. Pensar é um ato.
Os livros, quando olhados, fabricam um ethos.
Mas isto é um pensamento, um ato.
Não nos ocupemos agora com teorias.
Os livros gostam mesmo é de serem olhados.
Ah, os livros ...
Ontem organizei os livros de literatura,
hoje fiz meu chimarrão, sentei junto a estante de livros
fiquei olhando, olhando, olhando
Estou, ainda, olhando.
É bom de mais olhar os livros!
Sempre que faço isto é como se as histórias ali contadas
ganhassem vida de novo em mim.
As impressões da primeira leitura
apresentam-se e conversam entre si.
Sou um semi vivente neste burburinho de vozes e narrativas.
Minha atenção está em arranjar beleza,
forjar uma arquitetura para a disposição dos volumes.
Vejam que não é arquivologia o ato.
É necessidade de beleza.
Os personagens falam a olhos vistos
se tiverem espaço, se forem vistos.
Assim, me perco
nesta quase aventura
de fazer o olhador ser capturado pela tagarelice das palavras escritas.
Há brochuras várias, cores muitas, tamanhos diversos,
grafismos, traços, impressões, imagens ...
É impressionante isto. Os livros gostam de serem olhados!
Isto não é uma teoria é uma experiência.
Clarice Lispector na Hora da Estrela diz: Sentir é um fato. Pensar é um ato.
Os livros, quando olhados, fabricam um ethos.
Mas isto é um pensamento, um ato.
Não nos ocupemos agora com teorias.
Os livros gostam mesmo é de serem olhados.
E eu necessito mesmo é de beleza pra viver.
Ah, os livros ...
Ontem organizei os livros de literatura,
hoje fiz meu chimarrão, sentei junto a estante de livros
fiquei olhando, olhando, olhando
Estou, ainda, olhando.
É bom de mais olhar os livros!
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