domingo, 12 de maio de 2013

"O medo estava ali, nem no fundo, nem no raso, nadava tranquilamente"

Num dia desses uma amiga levou um tremendo susto.
Depois ela escreveu contanto a história.
Quando falou do medo que sentiu fiquei pensando
Isto é uma forma de viver.

Vejam, ela teve medo, muito medo.
Mas sua escrita não fala com horror do medo,
com ânsia de desfazer-se do medo.
Ela fala da presença do medo.
Uma presença como outras.

A presença da expectativa de uma festa
de casamento que se aproxima,
A presença de uma amigo que a visita,
O sabor de uma comida.

Ela fala do medo sem medo do medo.
Seu medo é da doença e sua força.
O medo, na sua escrita, é uma presença.
Ela diz: "O medo estava ali, nem no fundo, nem no raso, nadava tranquilamente".

Gostei muito desse jeito de falar do medo.
Sempre fico pensando que o medo
deve ter muito medo da gente.
Ele dá um pequeno sinal de vida e é histeria geral.
Choros, gritos, gestos grandes, vozerios soltos.

Ele deve ter gostado muito.
Ela o deixou nadando tranquilamente.
Gente, o medo deve ter esquecido de si.
Penso até que a partir de hoje ele nem vai
mais se assustar com os sustos que provoca.
Vai sair pra nadar enquanto o povo corre por aí.

Só não achei bom para mim..
Eu na piscina a dar braçadas e de repente...
o medo a nadar tranquilamente.
Faço eu o que com o meu medo de nadar?

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Camile Claudel ou Pensar por Imagens

Então.
Tenho pensado muito nestes dias.
Mas é um pensamento silêncio.
É um pensar por imagens.

Fui ver o filme sobre Camile Claudel.
É sóbrio.
Tem o fundo amarelo, como a luz de vela
e o preto da solidão sem luxos.
É casto.
Acho que é isto. Tiraram toda
a libido de viver de Camile.

Eu tinha uma gata linda.
O nome dela era Camile Claudel.
A veterinária riu quando escreveu seu nome na caderneta de vacinação.
Raça: Pelo curto brasileiro. Vulgo, pé duro.
Eu a peguei da rua. Estava com fome.
Dei comida e ela ficou.
Tão linda.
Deu muitas crias. Era namoradeira como o quê.
Depois ela morreu. Foi triste.

A Camile do filme impressiona.
A expressão do rosto é de mulher.
Faces bem marcadas. Bonitas, mas marcadas.
Não havia loucura em suas faces.
Havia solidão. Muita solidão.
Nenhum excesso em seu rosto.
Apenas solidão.

O filme é corajoso.
Deixa o expectador ver o que Camile vê.
Mesmo que Camile queira ver outra coisa,
há que ver o que pode ver.
Galhos secos de uma árvore,
uma horta e freiras de capote preto.

O som do filme perturba.
Escuta-se sua força nas coisas que toca.
Acho que a libido do filme está no vento.
E nas pedras. Há muitas pedras.
Pedras brancas opõe-se aos
passos dos personagens.

Acho que ainda estou pensando.
Talvez eu reescreva este texto.
Talvez fique como Camile.
Aceitando que este é o limite.