sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Palavrear, Palavrórios e Palavrarias
Ai que saudade
de escrever palavras.
Soltas, leves, líricas.
As que escapam
do uso fútil do dia a dia.
As que nascem mansas,
sonsas e belas.
As que explodem
feito luz de um novo dia.
Ai que saudades
de palavrear um pouco
Dizer da vida de todos dias
Das mandinganças, palavrórios e
palavrarias.
Por que será que as proezas diárias,
as agonias várias, as manias torpes
as náuseas humanas
têm ficado sem palavras?
Será o que meu Deus!
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Carta entre amigas - As terras rasas do São Francisco agradecem
100 palavras, seria ótimo!
Mande de aí, onde estiver.
Por aqui chegam cartas,
talvez até deixem passar palavras.
É preciso, porém
pensar bem na embalagem.
Palavras são preciosidades,
disputadas em todos os lugares.
As que mandares
já lhes dê alguma noção da terrinha:
águas quentes, águas frias
Moças de cabelos longos,
ondulados, em reboliço.
Moços altos, magros,
doces e gentis...
Há os brutos também.
Mas não mande palavras
que os entendam.
Mande palavras que queiram
vida de índio.
Palavras já gastas de civilização
também são boa companhia.
São gentis para com o que não conhecem.
Podes mandar também
palavras desentendidas,
pouco explicativas,
poucos clarividentes.
Elas são boa companhia,
leves, gentis...
Recebem toda gente.
Sou gaúcha, você sabe.
A gente gosta de ironia.
É uma arma antiga
daqueles que viveram
muito tempo a revelia.
Mande algumas se as encontrar.
Selecione, porém.
Grãos muito graves,
severam a poesia.
Agradeço as ditas escritas
que mandastes,
já me deram muito a sentir
do agora e do por vir.
As terras rasas do São Francisco,
também agradecem.
Depois da transposição,
nunca mais plantio de arroz,
nunca mais cuzcuz de arroz.
As palavras suas,
brancas e leves
lembram o gosto dessas iguarias.
Carta para Roseane Viana em resposta A Transposição do São Francisco Aconteceu!
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
A Tansposição do São Francisco aconteceu
A transposição do
São Francisco
aconteceu!
Uma só gota de poesia
passou por aqui.
Todas as palavras se foram.
Mesmo as que nascem novas
correm pra lá.
Não conseguem ficar aqui.
Será o que meu deus!
As folhas de papel
tomaram tudo para si.
Uma a uma...
todas as palavras
Vou fixar território
numa sanga.
Vá que algumas fujonas
se instalem ali,
entre lambaris.
Com sorte
pesco uma e outra
e as trago para aqui.
São Francisco
aconteceu!
Uma só gota de poesia
passou por aqui.
Todas as palavras se foram.
Mesmo as que nascem novas
correm pra lá.
Não conseguem ficar aqui.
Será o que meu deus!
As folhas de papel
tomaram tudo para si.
Uma a uma...
todas as palavras
Vou fixar território
numa sanga.
Vá que algumas fujonas
se instalem ali,
entre lambaris.
Com sorte
pesco uma e outra
e as trago para aqui.
domingo, 25 de agosto de 2013
Dona Sônia, o Livro de Protocolo e Todos os Nomes de Saramago
Num dia desses
me dirigi a Dona Sônia,
a fiel guardiã do Livro de Protocolo.
Apresentei a ela um cartão com um número:
0300130118120 de 15 de março de 2013.
Meu objetivo era saber
se a tal promoção por causa do doutorado
seria acrescida ou não no meu contracheque.
Afinal, faz tempo....
Eu explico.
Vivemos de mendicâncias.
Se você é uma profissional qualificada,
Quer dizer titulada
tem o benefício de ter acrescido em seu
salário base um percentual.
Uns dizem que é 15%.
Outros que é de 5%.
De fato mesmo,
até agora não recebi nada.
Fui eu lá saber onde estaria o tal
processo administrativo.
Dona Sônia prontamente
pega o Livro de Protocolo nas mãos.
Passa os dedos sobre o relevo das letras e números
manuscritos nas folhas de papel repetindo o final 120
para localizar mais rapidamente o que procuro.
Uma visão, o tal caderno.
É um caderno grande, tipo universitário,
de capa dura e cor preta, com folhas brancas,
linhas horizontais e verticais,
Todo escrito à mão: Número de protocolo, data de protocolo,
nome do requerente, assunto e o que mais for preciso anotar.
Quantos daqueles haverão?
Este é só deste ano e está quase totalmente preenchido.
É lindo demais.
Os registros manuscritos
desenham um mundo de códigos, signos, nuances
quase homogêneos, todos com uma e outra singularidade.
Detalhe. Tudo escrito com esferográfica azul.
As folhas sobrepostas umas as outras formam
uma espécie de ondulado,
um fio de macarrão esticado,
mas prensado entre as capas duras.
Não preciso dizer. Minha curiosidade se acendeu.
É que eu lembrei de Todos os Nomes de Saramago.
O personagem é um funcionário
público cujo ofício consiste em guardar
fichas, registros escritos com os nomes
dos viventes de uma pequena cidade.
Uma espécie de cartório que guarda
informações de identificação das pessoas
RG, CPF, Endereço, Filiação...
Essas coisas.
Um dia, o funcionário público pensa: Quem será este nome?
Que pessoa será esta? Onde mora? Como vive?
Ainda mora neste endereço? Quem é ela?
É que ele só sabe os nomes, não tem nenhum rosto em seus sentidos.
Deste dia em diante sua vida muda.
Volto a prestar atenção em Dona Sônia
e sua diligência nas folhas do livro.
Ela me diz: Já estou em Julho.
Eu mostro o cartão novamente para
ela conferir o número do processo.
Ela olha, confirma e volta a folhear o Livro.
Percebe minha inquietação.
Apressa-se em dizer que talvez
tenha sido registrado noutra data
e me encaminha para Dilza,
a responsável pelo setor que faz
o processo caminhar na instituição.
É um livro guardado a sete chaves.
Achei melhor deixar prá lá.
Minha relação poética com a vida e a
palavra escrita fica para outro momento.
me dirigi a Dona Sônia,
a fiel guardiã do Livro de Protocolo.
Apresentei a ela um cartão com um número:
0300130118120 de 15 de março de 2013.
Meu objetivo era saber
se a tal promoção por causa do doutorado
seria acrescida ou não no meu contracheque.
Afinal, faz tempo....
Eu explico.
Vivemos de mendicâncias.
Se você é uma profissional qualificada,
Quer dizer titulada
tem o benefício de ter acrescido em seu
salário base um percentual.
Uns dizem que é 15%.
Outros que é de 5%.
De fato mesmo,
até agora não recebi nada.
Fui eu lá saber onde estaria o tal
processo administrativo.
Dona Sônia prontamente
pega o Livro de Protocolo nas mãos.
Passa os dedos sobre o relevo das letras e números
manuscritos nas folhas de papel repetindo o final 120
para localizar mais rapidamente o que procuro.
Uma visão, o tal caderno.
É um caderno grande, tipo universitário,
de capa dura e cor preta, com folhas brancas,
linhas horizontais e verticais,
Todo escrito à mão: Número de protocolo, data de protocolo,
nome do requerente, assunto e o que mais for preciso anotar.
Quantos daqueles haverão?
Este é só deste ano e está quase totalmente preenchido.
Pensei.
Vou pedir para fotografar.É lindo demais.
Os registros manuscritos
desenham um mundo de códigos, signos, nuances
quase homogêneos, todos com uma e outra singularidade.
Detalhe. Tudo escrito com esferográfica azul.
As folhas sobrepostas umas as outras formam
uma espécie de ondulado,
um fio de macarrão esticado,
mas prensado entre as capas duras.
Não preciso dizer. Minha curiosidade se acendeu.
É que eu lembrei de Todos os Nomes de Saramago.
O personagem é um funcionário
público cujo ofício consiste em guardar
fichas, registros escritos com os nomes
dos viventes de uma pequena cidade.
Uma espécie de cartório que guarda
informações de identificação das pessoas
RG, CPF, Endereço, Filiação...
Essas coisas.
Um dia, o funcionário público pensa: Quem será este nome?
Que pessoa será esta? Onde mora? Como vive?
Ainda mora neste endereço? Quem é ela?
É que ele só sabe os nomes, não tem nenhum rosto em seus sentidos.
Deste dia em diante sua vida muda.
Volto a prestar atenção em Dona Sônia
e sua diligência nas folhas do livro.
Ela me diz: Já estou em Julho.
Eu mostro o cartão novamente para
ela conferir o número do processo.
Ela olha, confirma e volta a folhear o Livro.
Percebe minha inquietação.
Apressa-se em dizer que talvez
tenha sido registrado noutra data
e me encaminha para Dilza,
a responsável pelo setor que faz
o processo caminhar na instituição.
Me ocorreu dizer que existe um área
chamada sociologia da recepção e
que estuda a história do livro, a história da escrita
e blá, blá, blá, blá...
chamada sociologia da recepção e
que estuda a história do livro, a história da escrita
e blá, blá, blá, blá...
Mas ... Dona Sônia vai estranhar.
Peço para fotografar?É um livro guardado a sete chaves.
Achei melhor deixar prá lá.
Minha relação poética com a vida e a
palavra escrita fica para outro momento.
Ah, o meu processo? Não acharam.
Mandaram fazer outro
e protocolar no Livro.
Diferente do personagem de Saramago
não foi desta vez que a minha vida mudou.
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
Dias sem palavras, Dias com imagens, Dias com memórias
Reencontrei alguns amigos
de adolescência.
As fotos cumprem sua parte.
Dão ao tempo uma forma-imagem.
Corpos leves, esguios,
expressivos, em prontidão
esboçam os gestos grandes
da juventude.
Todos nós, tão lindos!
Bem antes dos vídeos
As fotos registravam tudo.
Dias felizes aqueles.
Cada dia era um novo,
um devir.
Isto não causava desconforto.
Era tão bom.
Sonhei a noite toda
com os amigos de antes.
Quem sabe vou num dos encontros
em Porto Alegre.
O sonho era sem palavras.
Só imagens.
Eu era tão tímida.
O sonho tinha olhares.
Palavras não.
Acho que foi a emoção.
Muitas imagens.
Tenho os olhos cansados
do sol dos trópicos.
Sorte foi a chuva.
Choveu muito hoje pela manhã.
Molhou bem minhas memórias.
Espero brotação nova vindo aí.
de adolescência.
As fotos cumprem sua parte.
Dão ao tempo uma forma-imagem.
Corpos leves, esguios,
expressivos, em prontidão
esboçam os gestos grandes
da juventude.
Todos nós, tão lindos!
Bem antes dos vídeos
As fotos registravam tudo.
Dias felizes aqueles.
Cada dia era um novo,
um devir.
Isto não causava desconforto.
Era tão bom.
Sonhei a noite toda
com os amigos de antes.
Quem sabe vou num dos encontros
em Porto Alegre.
O sonho era sem palavras.
Só imagens.
Eu era tão tímida.
O sonho tinha olhares.
Palavras não.
Acho que foi a emoção.
Muitas imagens.
Tenho os olhos cansados
do sol dos trópicos.
Sorte foi a chuva.
Choveu muito hoje pela manhã.
Molhou bem minhas memórias.
Espero brotação nova vindo aí.
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
O sentido da vida
Silêncio, o sentido da vida.
Hoje meu coração sentiu aquela coisa
boa, pequena, íntima, toda inteira
Hoje meu coração sentiu aquela coisa
boa, pequena, íntima, toda inteira
do encontro com o que dá sossego a alma: o sentido da vida.
Para cada um o sentido da vida esta em uma ou duas coisas. Talvez três.
Eu conheço poucas coisas que fazem meu coração ficar quieto e saber
que vive inteiro no meu peito.
Nestes momentos amo mais ainda o silêncio.
Um sorriso sem rir. Um sorriso do olhar.
Para cada um o sentido da vida esta em uma ou duas coisas. Talvez três.
Eu conheço poucas coisas que fazem meu coração ficar quieto e saber
que vive inteiro no meu peito.
Nestes momentos amo mais ainda o silêncio.
Um sorriso sem rir. Um sorriso do olhar.
Um prazer no corpo.
Fazer o que se gosta.
Tão bom.
Hoje me senti muito feliz.
Fazer o que se gosta.
Tão bom.
Hoje me senti muito feliz.
sábado, 27 de julho de 2013
Aqui não faz frio.
Aqui não faz frio.
Chove, apenas.
Sobraram três pés de árvore na minha rua.
Posso escrever vendo-os da janela.
Num dia de chuva como o de hoje
é um prazer para o olhar.
Talvez seja a memória das chuvas
infantis. Talvez sejam as águas
doces que conheci.
Lagoa dos Barros, do Peixoto,
Três Cachoeiras, Maquiné...
Aqui não faz frio.
Chove, apenas.
Chove, apenas.
Sobraram três pés de árvore na minha rua.
Posso escrever vendo-os da janela.
Num dia de chuva como o de hoje
é um prazer para o olhar.
Talvez seja a memória das chuvas
infantis. Talvez sejam as águas
doces que conheci.
Lagoa dos Barros, do Peixoto,
Três Cachoeiras, Maquiné...
Aqui não faz frio.
Chove, apenas.
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