quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O sentido da vida

Silêncio, o sentido da vida.
Hoje meu coração sentiu aquela coisa
boa, pequena, íntima, toda inteira 
do encontro com o que dá sossego a alma: o sentido da vida.
Para cada um o sentido da vida esta em uma ou duas coisas. Talvez três.
Eu conheço poucas coisas que fazem meu coração ficar quieto e saber
que vive inteiro no meu peito.
Nestes momentos amo mais ainda o silêncio.
Um sorriso sem rir. Um sorriso do olhar. 
Um prazer no corpo.
Fazer o que se gosta.
Tão bom.
Hoje me senti muito feliz.


sábado, 27 de julho de 2013

Aqui não faz frio.

Aqui não faz frio.
Chove, apenas.
Sobraram três pés de árvore na minha rua.
Posso escrever vendo-os da janela.
Num dia de chuva como o de hoje
é um prazer para o olhar.
Talvez seja a memória das chuvas
infantis. Talvez sejam as águas
doces que conheci.
Lagoa dos Barros, do Peixoto,
Três Cachoeiras, Maquiné...
Aqui não faz frio.
Chove, apenas.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

A Calçada e o Canto do Povo de Um Lugar

Num dia desses fui ao centro da cidade.
Quer dizer à Calçada.
Um ponto de Salvador próximo ao Porto.
Região que foi próspera nos anos 1990.
Grandes edifícios de empresas públicas,
montepios, bancos, instituições ligadas a justiça,
saúde, fazenda e importante centro comercial com prédios de
escritórios e o Museu do Cacau.
Há também o Trapiche Barnabé, o Mercado do Ouro, o Plano Inclinado
e outros equipamentos de época em que a prosperidade
andava por lá.

Vou pouco ao bairro.
É bem verdade que em meus passeios
antropológicos passo por lá,
ao menos, uma vez ao mês.
Faço uso do Doron, ônibus que passa
no Rio Vermelho e vai até o Cabula.
No entremeio passa pela Calçada.
Acho curioso chamar o bairro por este nome.
Preciso pesquisar o porquê disto.
Eu costumo me referir ao bairro como
cidade baixa, já que ele fica abaixo do Pelourinho
e do Santo Antônio Além do Carmo.

Mas o que isto importa?
Não sei se o que se passa lá interessa,
mas a sensação de andar por ali é de trânsito.
Tudo está em trânsito, espera e deriva.
Tudo ao mesmo tempo.
Filas diante do Ministério do Trabalho.
Sim, eu passei lá, antes das 9h da manhã.
Filas diante de um prédio que tem uma agência bancária no térreo,
com a porta aberta para a calçada. Deve ser por isto o nome.
Os estabelecimentos são abertos para a calçada.
Moradores de rua nos vãos das portadas
dos grandes edifícios, naqueles em que não há grades.
Pessoas desfazem as camas, reúnem seus pertences:
colchão, lençóis e outros panos.
Alguns, ainda, dormem.

Na festa do Bom Fim o bairro é vivo.
Ele é o ponto em que a festa começa.
Lancherias, padarias, quiosques...
Tudo se abre para os passantes em procissão festiva.
Baianas e suas Águas de Cheiro em vasos sobre os torsos.
Políticos e suas comitivas.
Bandas, Fanfarras, Cordões, Blocos
e outras formações coletivas dançam, tocam instrumentos, 
desfilam cores em roupas bordadas
com enfeites, brilhos e sons.

Mas neste dia a deriva dava o tom.
Não que viver um pouco sem destino
não seja bom. É muito bom viver um pouco
sem rumo, um pouco vagante.
Feito estar entre ondas do mar. O balanço acomoda 
melhor o que nos pesa.
Mas deriva muita faz delirar.
Faz desesperar.
A turba do Bom Fim sabe o fim a encontrar.
O passante num dia comum sente vontade de chorar.
Onde está alegria do bairro?
Onde estão as pessoas?
Onde estão os corpos vivos, febris, gentis, risonhos?
Para onde foram todos e tudo?
É isto que faz derivar um passante naquele lugar.
Fica-se a buscar, a buscar, a buscar...
os de ontem, os de antes e os de hoje.

É que os que ali estão não se veem, não se tocam.
Ninguém canta, dança ou grita.
Todos seguem em busca de algo: um documento carimbado, o protocolo junto a
repartição, a audiência na justiça, um certificado de tempo de serviço,
uma merenda para matar a fome, uma esmola para começar o dia,
uma vaga para estacionar o carro.
Xi, lá vem o flanelinha.

Não sei como isto se estabelece.
O que? A vida fixar-se numa e só experiência.
Sei apenas que da Calçada tiraram o Canto de um Povo de Um lugar.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Cabiria de Fellini, Clarice Lispector e Eu

Ontem assisti Noites de Cabiria de Fellini.
Eu pensava que já o tinha visto,
mas me confundi
com Julieta dos Espíritos.

Cabiria vive encontros em trânsito.
Tem sempre de caminhar. Ir ou voltar.
É que seu ofício lhe faz ir além de seu lugar.

Um pouco como Clarice de "É para lá que eu vou".
Só depois de muito ir é que ela não voltou.
Bem, isto o filme não confirma.
Mas, Clarice, também não.

Cabiria vive encontros com o desamparo.
Vive na superfície de entre mundos.
Mundos na borda do seu.

Um pouco como Dona Frozina de Clarice,
cujas maninganças lhe deram vida longa,
a pesar da viuvez juvenil, de dormir
antes de terminar as rezas e viver de pensão.

Cabiria arriscou-se e foi numa procissão.
Degredados em desespero.
Após a benção, diversão.
Pique-nique, dança com violão.
Mas Cabiria sofre!Quer ser como a Madona,
esposa, mãe e mulher de família.
Grita como se tivesse lido Clarice:
"À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante,
eu a que necessita, a que pede, a que chora,
a que se lamenta. Mas a que canta".

Cabiria gosta mesmo é de dançar.
Dança mambo. Dança na rua, dança
no bar, dança depois de uma mesma desilusão.
É uma visão ingênua e ao mesmo tempo lírica do desamparo feminino.
Não tem crueldade no filme. Tem apenas deriva, errância.

Cabiria não tem vestido.
Perde-o já no primeiro capítulo.
Um afogamento acaba com seu único e belo vestido.
Mas ela se salva.

Acho que Clarice viu o filme de Fellini.
Ela diz: - "Vou contar um segredo: meu vestido é lindo e não quero morrer ...
...O morto no mar da Urca...o bobo, morreu..."
Cabiria salva-se e com ela uma parte de seu vestido.
Mas está bem assim. Pode seguir, mesmo assim.

Não sabia que Clarice ficava "Atônita"
com um vestido lindo. Eu também.
Faço vestidos e realmente é muito bom ter um vestido lindo.
Ainda, não tenho nenhum amarelo e azul.
Mas vou providenciar.

Cabíria comprou roupa nova.
Mas não um vestido.
Seguiu com duas peças, saia e blusa.
Talvez seja uma sabedoria usar saia e blusa.
Eu ainda não sei fazer blusas.
Em pensamento é como se soubesse, mas não sei.
Ou talvez eu ainda queira ficar atônita.
É bom ficar atônita com um vestido lindo!

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Noites de Cabiria - Frederico Fellini (1957)
Maninganças de Dona Frozina, É Para Lá Que Eu Vou e O Morto no Mar da Urca de Clarice Lispectos estão publicados em Onde Estivestes de Noite, editora Rocco, 1999.

domingo, 30 de junho de 2013

Django à brasileira e sua Brunilde: a Democracia de Direitos

Frases de amor
em guardanapos de papel.
Uma experimentação gostosa,
casual e excitante.
Abre a fantasia dos encontros.

Fui à Sampa nestes dias
Adoro aquela estética urbana
Ruas, ruas, ruas.
Calçadas razoavelmente amplas
para os caminhantes.
Moradas, árvores,
travessias apressadas nas faixas de segurança.
Andar perdido de uns e outros.
Há também os sem rumo nestas
metrópolis de pedra.

Adoro pedras
São criaturas expressivas.
Tem pedras lindas na costa de Santa Catarina
Guarda do Embaú à Pinheira,
Costeira de Zimbros e outras Ilhas de Bombinhas.

O taxista que me levou ao aeroporto disse:
- "Moça eu fui na manifestação (em Salvador). Mas o que os policiais fizeram
é injusto. Botamos as crianças na frente, depois as mulheres,
os homens e os jovens. Era para eles verem que era sem provocação,
queríamos nos manifestar. Mas eles jogaram bombas de gás
na direção das crianças e mulheres. Jogamos pedras neles.
Eu joguei muito paralelepípedo neles...".

Parece que estamos vivendo um Django à brasileira.
Quentin Tarantino deveria tirar umas férias por aqui.
Brunilde, a bela Democracia de Direitos, acendeu
o coração de muitos brasileiros.
Se os corações seguirem Tarantino
a aventura será sem piedade, com humor fino e desagradará muitos.
Vigiar será preciso. Há muitos cumprindo com vigor
o papel de Samuel L. Jackson em Django.

Bom, um chopp e conversas com os amigos
é uma boa pedida para estes dias.
Turbilhão gostoso este que interroga o estabelecido,
descontinua a política das explicações declaratórias
adotada pelos governantes atuais.
Tédio é o que nos propõem.

Bilhetes de amor, também, têm seu valor.
Os revolucionários que o digam:  Mário e Cosette,
Giuseppe e Anita Garibaldi, Apolônio e René de Carvalho, Betinho (Herbert de Souza) e Maria.


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Os dias e a aridez


Os últimos dias foram áridos.
Talvez seja a vida do mundo
ao redor agonizando.
Talvez a atmosfera de crise
que se desenha em nosso país.
Ou as profecias de
um mundo pior realizando-se.

Certo é que os dias andam áridos.
Talvez seja a seca do sertão rumando ao litoral.
A rudeza das palavras endurecendo os dias.
A morte dos corpos, dia a dia.
A ânsia por um lugar no mundo.
Ou o medo de tudo.

Certo é que os dias e a aridez estão de prosa.
Um gole pro santo outro pro canto.
Uma história daqui outra de acolá.
Olhos atentos, gestos marcados.
Pulso preso à palavra, beiço na borda do copo.

Sei não no que isto vai dar.
Talvez seja um parleur pra negociar.
Um acerto de contas.
Um reencontro.
Um crime por encomenda.

Certo é que os dias e a aridez
estão a conversar.

 

sábado, 1 de junho de 2013

O afiador de facas, Mário Quintana e um vestido de Chitão chique

Ontem  passou por aqui o afiador de facas.
Empurrava
à moda de um carrinho de mão,
a roda de afiar
Será que ele perdeu uma das rodas no tempo de sua existência?
Desde quando existem afiadores de facas?
Não sei.

Estranhei a imagem.
Um afiador de facas que caminha!
Para mim afiadores de facas
pedalam, apitam e afiam as facas.
Tudo e uma mesma coisa.

Voltei ao meu vestido novo.
Passar cuidadosamente a dobra lateral do tecido.
Passar o ziguezague num lado, no outro...
Vincar bem a dobra do tecido para fixar o zipper.
Alfinetar o artefacto. Alinhavá-lo cuidadosamente.
Costurar, só depois de trocar o pé caldador.

Uma amiga me disse que escrevo crônicas ótimas.
Adorei. Sempre quis ser como Clarice de Aprendendo a Viver.
Fazer do viver diário uma arte.
Mas quanto desassossego é preciso para escrever bem?
Não sei.

Pensei em fazer uma crônica destes dias.
Depois esqueci o que iria escrever.
Voltei à máquina de costura.
Quero terminar um vestido.
Estou testando um evasê em chitão, bem florido e colorido.
A tesoura não cortou direito.
Lembrei do afiador de facas.
Quando será que ele vai passar aqui de novo?

Preciso terminar de ler o
Relato de Arthur Gordon Pym de Allan Poe.
Sempre achei que Moby Dick fosse a obra de aventuras no mar.
Descobri que Melville se inspirou em Gordon Pym de Allan Poe.
Pode? Agente nunca sabe nada.
Melhor se conformar.

Adoro Allan Poe.
Conheço mais seus contos fantásticos.
Por sinal, saiu uma edição linda de seus contos pela Tordesilhas:
Contos de Imaginação e Mistério.
Fiquei com uma vontade de comprar...
Mas tenho várias edições diferentes dos contos dele.
Sempre leio de novo.
Tradução diferente pode surpreender.

Também vi Leminsky na Cultura.
A capa está a cara dele.
Melhor, o bigode dele.
Despojado e provocador, como seus poemas.

Tem alguns poetas que a marca é
nos surpreender.
Quando você pensa que os decodificou
eles mudam o rumo, a prosa, a métrica,
o ritmo...mudam.
Um encontro novo a cada obra.
Leminsky é assim.
Ao menos o que eu li dele.
Depois de Gordon Pym já aviso
que não sei de nada.

Se bem que misturo Leminsky com Walt Whitman.
Assim como Fernando Pessoa e Paulo Autran.
É que conheci Whitman através de Leminsky e
ouvi muita poesia de Pessoa na voz de Autran.

Só conheci, por ele mesmo, Mário Quintana.
Mesmo assim, eu achava estranho um senhor bem velho escrever
um livro chamado Sapato Florido.
Como podia ser? Me soava muito estranho à época.
Não que os poetas e suas artes tenham idade.
Mas minha juventude não encontrava entre imagem e som um
ponto de ancoragem.

Quando chegar em casa vou escrever.
Que nada!
Experimentei o vestido. Ficou bom.
Falta colocar uma renda na barra do forro.
Vai ficar chique.
Um vestido de chitão chique.
Vou trabalhar com ele amanhã.
É que estou pensando que hoje é domingo.
Mas hoje é sábado.
Tão bom.

Chitão pega bem o corte.
Imagem e molde se ajustam,
juntam-se como um só.
Acho que, enfim, não estranhei
ideia e imagem.
O vestido parece que segue as linhas do meu corpo.
Meu corpo parece que modela o vestido.