domingo, 30 de junho de 2013

Django à brasileira e sua Brunilde: a Democracia de Direitos

Frases de amor
em guardanapos de papel.
Uma experimentação gostosa,
casual e excitante.
Abre a fantasia dos encontros.

Fui à Sampa nestes dias
Adoro aquela estética urbana
Ruas, ruas, ruas.
Calçadas razoavelmente amplas
para os caminhantes.
Moradas, árvores,
travessias apressadas nas faixas de segurança.
Andar perdido de uns e outros.
Há também os sem rumo nestas
metrópolis de pedra.

Adoro pedras
São criaturas expressivas.
Tem pedras lindas na costa de Santa Catarina
Guarda do Embaú à Pinheira,
Costeira de Zimbros e outras Ilhas de Bombinhas.

O taxista que me levou ao aeroporto disse:
- "Moça eu fui na manifestação (em Salvador). Mas o que os policiais fizeram
é injusto. Botamos as crianças na frente, depois as mulheres,
os homens e os jovens. Era para eles verem que era sem provocação,
queríamos nos manifestar. Mas eles jogaram bombas de gás
na direção das crianças e mulheres. Jogamos pedras neles.
Eu joguei muito paralelepípedo neles...".

Parece que estamos vivendo um Django à brasileira.
Quentin Tarantino deveria tirar umas férias por aqui.
Brunilde, a bela Democracia de Direitos, acendeu
o coração de muitos brasileiros.
Se os corações seguirem Tarantino
a aventura será sem piedade, com humor fino e desagradará muitos.
Vigiar será preciso. Há muitos cumprindo com vigor
o papel de Samuel L. Jackson em Django.

Bom, um chopp e conversas com os amigos
é uma boa pedida para estes dias.
Turbilhão gostoso este que interroga o estabelecido,
descontinua a política das explicações declaratórias
adotada pelos governantes atuais.
Tédio é o que nos propõem.

Bilhetes de amor, também, têm seu valor.
Os revolucionários que o digam:  Mário e Cosette,
Giuseppe e Anita Garibaldi, Apolônio e René de Carvalho, Betinho (Herbert de Souza) e Maria.


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Os dias e a aridez


Os últimos dias foram áridos.
Talvez seja a vida do mundo
ao redor agonizando.
Talvez a atmosfera de crise
que se desenha em nosso país.
Ou as profecias de
um mundo pior realizando-se.

Certo é que os dias andam áridos.
Talvez seja a seca do sertão rumando ao litoral.
A rudeza das palavras endurecendo os dias.
A morte dos corpos, dia a dia.
A ânsia por um lugar no mundo.
Ou o medo de tudo.

Certo é que os dias e a aridez estão de prosa.
Um gole pro santo outro pro canto.
Uma história daqui outra de acolá.
Olhos atentos, gestos marcados.
Pulso preso à palavra, beiço na borda do copo.

Sei não no que isto vai dar.
Talvez seja um parleur pra negociar.
Um acerto de contas.
Um reencontro.
Um crime por encomenda.

Certo é que os dias e a aridez
estão a conversar.

 

sábado, 1 de junho de 2013

O afiador de facas, Mário Quintana e um vestido de Chitão chique

Ontem  passou por aqui o afiador de facas.
Empurrava
à moda de um carrinho de mão,
a roda de afiar
Será que ele perdeu uma das rodas no tempo de sua existência?
Desde quando existem afiadores de facas?
Não sei.

Estranhei a imagem.
Um afiador de facas que caminha!
Para mim afiadores de facas
pedalam, apitam e afiam as facas.
Tudo e uma mesma coisa.

Voltei ao meu vestido novo.
Passar cuidadosamente a dobra lateral do tecido.
Passar o ziguezague num lado, no outro...
Vincar bem a dobra do tecido para fixar o zipper.
Alfinetar o artefacto. Alinhavá-lo cuidadosamente.
Costurar, só depois de trocar o pé caldador.

Uma amiga me disse que escrevo crônicas ótimas.
Adorei. Sempre quis ser como Clarice de Aprendendo a Viver.
Fazer do viver diário uma arte.
Mas quanto desassossego é preciso para escrever bem?
Não sei.

Pensei em fazer uma crônica destes dias.
Depois esqueci o que iria escrever.
Voltei à máquina de costura.
Quero terminar um vestido.
Estou testando um evasê em chitão, bem florido e colorido.
A tesoura não cortou direito.
Lembrei do afiador de facas.
Quando será que ele vai passar aqui de novo?

Preciso terminar de ler o
Relato de Arthur Gordon Pym de Allan Poe.
Sempre achei que Moby Dick fosse a obra de aventuras no mar.
Descobri que Melville se inspirou em Gordon Pym de Allan Poe.
Pode? Agente nunca sabe nada.
Melhor se conformar.

Adoro Allan Poe.
Conheço mais seus contos fantásticos.
Por sinal, saiu uma edição linda de seus contos pela Tordesilhas:
Contos de Imaginação e Mistério.
Fiquei com uma vontade de comprar...
Mas tenho várias edições diferentes dos contos dele.
Sempre leio de novo.
Tradução diferente pode surpreender.

Também vi Leminsky na Cultura.
A capa está a cara dele.
Melhor, o bigode dele.
Despojado e provocador, como seus poemas.

Tem alguns poetas que a marca é
nos surpreender.
Quando você pensa que os decodificou
eles mudam o rumo, a prosa, a métrica,
o ritmo...mudam.
Um encontro novo a cada obra.
Leminsky é assim.
Ao menos o que eu li dele.
Depois de Gordon Pym já aviso
que não sei de nada.

Se bem que misturo Leminsky com Walt Whitman.
Assim como Fernando Pessoa e Paulo Autran.
É que conheci Whitman através de Leminsky e
ouvi muita poesia de Pessoa na voz de Autran.

Só conheci, por ele mesmo, Mário Quintana.
Mesmo assim, eu achava estranho um senhor bem velho escrever
um livro chamado Sapato Florido.
Como podia ser? Me soava muito estranho à época.
Não que os poetas e suas artes tenham idade.
Mas minha juventude não encontrava entre imagem e som um
ponto de ancoragem.

Quando chegar em casa vou escrever.
Que nada!
Experimentei o vestido. Ficou bom.
Falta colocar uma renda na barra do forro.
Vai ficar chique.
Um vestido de chitão chique.
Vou trabalhar com ele amanhã.
É que estou pensando que hoje é domingo.
Mas hoje é sábado.
Tão bom.

Chitão pega bem o corte.
Imagem e molde se ajustam,
juntam-se como um só.
Acho que, enfim, não estranhei
ideia e imagem.
O vestido parece que segue as linhas do meu corpo.
Meu corpo parece que modela o vestido.

domingo, 12 de maio de 2013

"O medo estava ali, nem no fundo, nem no raso, nadava tranquilamente"

Num dia desses uma amiga levou um tremendo susto.
Depois ela escreveu contanto a história.
Quando falou do medo que sentiu fiquei pensando
Isto é uma forma de viver.

Vejam, ela teve medo, muito medo.
Mas sua escrita não fala com horror do medo,
com ânsia de desfazer-se do medo.
Ela fala da presença do medo.
Uma presença como outras.

A presença da expectativa de uma festa
de casamento que se aproxima,
A presença de uma amigo que a visita,
O sabor de uma comida.

Ela fala do medo sem medo do medo.
Seu medo é da doença e sua força.
O medo, na sua escrita, é uma presença.
Ela diz: "O medo estava ali, nem no fundo, nem no raso, nadava tranquilamente".

Gostei muito desse jeito de falar do medo.
Sempre fico pensando que o medo
deve ter muito medo da gente.
Ele dá um pequeno sinal de vida e é histeria geral.
Choros, gritos, gestos grandes, vozerios soltos.

Ele deve ter gostado muito.
Ela o deixou nadando tranquilamente.
Gente, o medo deve ter esquecido de si.
Penso até que a partir de hoje ele nem vai
mais se assustar com os sustos que provoca.
Vai sair pra nadar enquanto o povo corre por aí.

Só não achei bom para mim..
Eu na piscina a dar braçadas e de repente...
o medo a nadar tranquilamente.
Faço eu o que com o meu medo de nadar?

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Camile Claudel ou Pensar por Imagens

Então.
Tenho pensado muito nestes dias.
Mas é um pensamento silêncio.
É um pensar por imagens.

Fui ver o filme sobre Camile Claudel.
É sóbrio.
Tem o fundo amarelo, como a luz de vela
e o preto da solidão sem luxos.
É casto.
Acho que é isto. Tiraram toda
a libido de viver de Camile.

Eu tinha uma gata linda.
O nome dela era Camile Claudel.
A veterinária riu quando escreveu seu nome na caderneta de vacinação.
Raça: Pelo curto brasileiro. Vulgo, pé duro.
Eu a peguei da rua. Estava com fome.
Dei comida e ela ficou.
Tão linda.
Deu muitas crias. Era namoradeira como o quê.
Depois ela morreu. Foi triste.

A Camile do filme impressiona.
A expressão do rosto é de mulher.
Faces bem marcadas. Bonitas, mas marcadas.
Não havia loucura em suas faces.
Havia solidão. Muita solidão.
Nenhum excesso em seu rosto.
Apenas solidão.

O filme é corajoso.
Deixa o expectador ver o que Camile vê.
Mesmo que Camile queira ver outra coisa,
há que ver o que pode ver.
Galhos secos de uma árvore,
uma horta e freiras de capote preto.

O som do filme perturba.
Escuta-se sua força nas coisas que toca.
Acho que a libido do filme está no vento.
E nas pedras. Há muitas pedras.
Pedras brancas opõe-se aos
passos dos personagens.

Acho que ainda estou pensando.
Talvez eu reescreva este texto.
Talvez fique como Camile.
Aceitando que este é o limite.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Coisas de mulher, só para a vovó.


O silêncio também é uma conversa. 
Fabular, falar consigo e com os que nos habitam pela memória 
é também uma experiência de valor e não nega a outrem. 
Os silêncios  fazem expandir a existência. 

Eu estou por aqui. 
Muitas coisas boas no trabalho. 
Amigos novos, amigos antigos, projetos com boas parcerias. Enfim, dias povoados. 

Entre isto, corte e costura. 
Uma amiga diz que sou "modista". Rimos muito juntas. 
Uma saia nova por semana. 
Meu primeiro vestido está quase pronto. 
Todo alinhavado e feito num tecido que na linguagem local  chama-se "caça bordado",
em linguagem gaúcha made in french fala-se broderie. 

Estou adorando. 
Sempre quis fazer minhas roupas, mas ser independente envolvia outras aprendizagens. 
Coisas de mulher, só para a vovó. 
No mais, pequenas alegrias: Choveu, enfim, hoje e quarta-feira passada. Choveu muito!!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Quantas histórias!

Num dia desses depois de ler o escrito de uma amiga
dei nome para uma forma de viver que me define: Adoro ouvir histórias.
Realmente, adoro ouvir histórias.

Cresci ouvindo histórias.
Algumas contadas por meu pai sobre o lugar em que ele nasceu.
A lua cheia numa madrugada na qual se iniciava uma colheita de aipim,
As jornadas de homens sobre burros levando mantimentos às cidades próximas,
Trilhas na borda das serras do mar,
Lagoas. Lindas lagoas no topo das serras e em seus entremeios
Patos, marrecos e outros a entrar e sair de águas.

Uma parte dessas histórias eram contadas ao vivo,
em passeios por esses lugares.
A grande serra vista de longe se apresentava ao olhar num azul escuro.
Uma imagem que ainda procuro noutras montanhas.

Aprendi a ser contemplativa nesses caminhos.
Lírios de São José cheirosíssimos em estradas de terra.
Cabeças e mãos para fora do carro
Gritos, alaridos e gracejos entre crianças
Muita confusão.

Rios de pedra com água rasa.
Lindos, com águas limpas faziam as brincadeiras e correrias da meninada.
No inverno eram águas grossas, velozes e volumosas.
Traziam a inundação depois da chuva.
Uma ponte pênsil testemunhava as histórias e bravatas
dos narradores.

Bem, isto tudo porque um amigo me deu um livro de poesia.
Estou lendo ainda,
Mas sua escrita tem um jeito de contar histórias
sem imagem que faz imagem.
Algo como fazer ver a vida na vida acadêmica.
É que ele os escreveu conectado ao cotidiano universitário:
pesquisa, ensino, formação pós-graduada.
É preciso contar histórias. 

Transcrevo fragmentos do título Impulsos estudados:  

"De quem batalha com seu discurso
 como quem rala com seu corpo".
               (...)
"Feia e nova nasce a ideia.
 Bela porém velha passa a imagem".
              (...)
"Se puder escreva, não vale a pena ficar encucado. 
 Toda palavra foi inventada dentro de alguma luta".
                                            Francisco Zorzo, 2003